Opções de privacidade

Dados de saúde no radar da ANPD: o que o Mapa de Temas Prioritários 2026-2027 muda para hospitais, clínicas e operadoras

A nova agenda fiscalizatória da Autoridade coloca dados de saúde e direitos do titular no centro do biênio. Gestores e DPOs do setor precisam revisar bases legais, canais de atendimento e fluxos com terceiros antes que a primeira intimação chegue.

Por que esta semana é diferente

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) aprovou, pela Resolução CD/ANPD nº 30/2025, o Mapa de Temas Prioritários que vai orientar a fiscalização no biênio 2026-2027, ao lado da atualização da Agenda Regulatória 2025-2026 (Resolução CD/ANPD nº 31/2025). Para quem atua no setor saúde, três pontos do documento merecem leitura atenta.

Primeiro: direitos dos titulares foi confirmado como um dos quatro temas prioritários da fiscalização, junto com proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, tratamento de dados pelo Poder Público e inteligência artificial e tecnologias emergentes.

Segundo, e este é o ponto que ainda não circulou amplamente nas análises do mercado: dentro do eixo “direitos dos titulares”, a ANPD prevê 40 ações fiscalizatórias ao longo do biênio, das quais 10 são dirigidas especificamente a tratamentos envolvendo dados biométricos, de saúde ou financeiros.

Em outras palavras: dado de saúde foi nomeado pela Autoridade como categoria de risco prioritário.

Terceiro: a Agenda Regulatória mantém em seu escopo a regulamentação de dados sensíveis e das hipóteses legais de tratamento, o que sinaliza que 2026 deve trazer normativos mais detalhados para o setor saúde.

A leitura é direta: a ANPD está sinalizando, com antecedência e por escrito, onde vai bater.

Não é mais sobre adequação genérica à LGPD. É sobre como hospitais, clínicas, operadoras e healthtechs respondem hoje quando um paciente exige acesso, correção ou eliminação dos próprios dados.

O que faz dado de saúde ser um caso à parte

Dados de saúde são, por definição do art. 5º, II da LGPD, dados pessoais sensíveis.

Isso gera três consequências operacionais relevantes:

  • Hipóteses legais mais restritas
  • Risco regulatório ampliado em incidentes
  • Cadeia extensa de operadores e terceiros

Hospital, clínica e operadora não tratam dados isoladamente. Laboratórios, prontuários eletrônicos, telemedicina, cloud, auditorias médicas, marketing e BI clínico fazem parte da cadeia.

Cada elo precisa estar mapeado no ROPA e vinculado por DPA adequado.

Quando a ANPD diz que vai olhar para “direitos do titular” como prioridade, o recado é claro:

A Autoridade quer ver canal funcional, prazos respeitados, resposta substantiva e registro auditável.

O que revisar antes da próxima auditoria

1. Canal do titular

O canal:

  • existe?
  • funciona?
  • é rastreável?

A tendência é que o que antes era educativo passe a ter caráter sancionatório.

O DPO precisa verificar:

  • SLA de resposta
  • protocolo rastreável
  • fluxo interno estruturado
  • publicação correta do Encarregado
  • política de privacidade operacionalizável

2. Base legal por finalidade

Em saúde, consentimento não pode ser tratado como base universal.

Prontuário, marketing, auditoria, telemedicina e pesquisa clínica possuem bases legais distintas.

O ROPA precisa estar segmentado por:

  • finalidade
  • hipótese legal
  • prazo de retenção
  • justificativa técnica

3. Operadores e DPA

A fiscalização vem acompanhada de exigência crescente de DPAs robustos.

Pontos críticos:

  • proibição de uso secundário
  • cláusulas de IA
  • transferência internacional
  • SLA de incidente
  • devolução/eliminações de dados
  • direito de auditoria

4. Incidentes e resposta

Com o avanço de ransomwares no setor saúde, o plano de resposta deixou de ser documento de gaveta.

A organização precisa:

  • definir responsáveis
  • estruturar critérios objetivos
  • integrar continuidade de negócios
  • treinar equipes assistenciais

O que esperar dos próximos meses

A expectativa é que a ANPD avance em:

  • regulamentação de dados sensíveis
  • transferência internacional
  • IA aplicada à saúde
  • exigências de RIPD em cenários de alto risco

Para o DPO de saúde, o recado é simples:

O tempo de “estar começando a adequação” passou.

O biênio 2026-2027 será marcado por:

  • maturidade demonstrável
  • evidência operacional
  • rastreabilidade
  • governança funcional
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